segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Página trezentos e sententa e três
A amante dele

Desde o começo, eu sabia que eles flertavam. Discretamente, ou nem tanto. Ela sempre exerceu um grande fascínio sobre ele.

Pudera. Não tem o meu corpo, o meu cheiro, meu jeito de ser, minhas idéias, e talvez por isso não seja oficialmente a dona do coração dele, mas ela tem uma influência inegável no homem que eu amo. Ela dá a ele um sensação de poder que eu nunca vou oferecer. Faz dele um homem realizado, aumenta sua auto-estima. Remunera financeira ou moralmente as ações dele, propõe desafios cada vez mais ousados que atiçam a curiosidade que eu amo nele. Ele gosta de saber se é capaz - ou "que é capaz", quase sempre, e ela oferece isso o tempo todo.

Literalmente, o tempo todo. Pra ela não existe dia útil e final de semana, feriado, hora comum, noite, madrugada. Qualquer hora é hora, qualquer lugar é lugar. E assim, exigente, ela tem tomado ele de mim.

Nunca disputei homem nenhum com ninguém, sempre achei que o que é meu por direito não vai me exigir luta. E não vou lutar contra ela, porque posso me cansar e perder no final. E eu não sei perder. Não mesmo.

Sigo assim, entristecida. Me sentindo preterida, apesar de amada. Me sentindo opção, ao invés de regra. Fico torcendo pro relacionamento deles amornar, pra ver se o meu se aquece. Sei que ele nunca vai largá-la, e não o condeno. Só rezo pra que um dia - bem próximo, por favor - ele aprenda o quanto eu preciso que ele me mostre que ela é a segunda, e eu a primeira. Quero me sentir assim, importante. Muito importante. Mais que quase tudo.

A amante dele tem um nome masculino: Trabalho. E de tão sofrida com esse relacionamento deles, acabei aumentando a minha relação com ela. E vamos nesse triste triângulo: eu, ele e trabalho demais...

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