terça-feira, 12 de agosto de 2008

Página trezentos e setenta e um
Perto do fim

Reviraram seu lixo. Nenhum outro lugar oferecia pistas, então que procurassem no lixo. Lenços de papel, etiquetas, linhas, embalagens e aquele papel. Papel cor-de-rosa chá, delicado como as mais lindas cartas que poderia ter escrito a amores amantes e amores amigos.

O papel dobrado no lixo. Dobrado, cuidadosamente colocado no lixo. Para ser achado, talvez. Apenas lixo, quem sabe.

Aberto, continha aquela caligrafia típica dos momentos de pressa. Brainstorm, pensamentos mais rápidos que a possibilidade física de escreve-los. Quase ilegível, o papel dobrado do lixo revirado dizia:

"Cansei. Me sinto incapaz e infeliz. O mundo anda muito mudado. Não se valorizam as organizações, nem o bem comum, nem as instituições. Eles se valorizam, o indivíduo, só. Indivíduos sós.
E hoje não joguei pérolas aos porcos. Menos que isso, senti como se forçasse comida na goela deles. Como se fosse necessário convence-los que precisam comer. Eles, como anoréxicos, se negavam a receber a comida. Quando usei argumentos mais fortes, coloquei a comida em suas bocas. E tão logo viro as costas, tenho certeza que correrão ao banheiro mais próximo e tudo vomitarão.
Professor de gente que não quer aprender. Conviver com gente que não gosta de saber. Não é vida. Nem sobrevida. É sofrimento e só. Indivíduos sós e sem saber. Vazio. E fim."

Preocupados, pensaram o pior. Pensaram que ela desistia da vida, de tudo, de todos. Tolos. Vida não era aquilo, aquilo era o que mantinha a sua vida. Encontraram-na, dias depois - depois da esperança perdida. Estava ela, sentada em uma mesa, copo levado ao lábios no meio da noite fria.

A mesa, o salão. O copo com água aplacava a sede de uma longa seqüência de danças. Encontraram-na enebriada no ópio de sua vida. Encontraram-na entre as danças do salão. E perceberam que, apesar do papel cor-de-rosa, amanhã cedo estaria de volta a professora, as pérolas e os porcos. E o fim, sempre ao alcance dos olhos, perto como o horizonte. Sem fim.

3 comentários:

Anônimo disse...

vem tomar um suco de laranja comigo!

Anônimo disse...

2- acabei de ver o wisnik- um escritor, musico poeta.....

Escute "perolas aos poucos" dele. é um cd, é uma música, é lindo!

Anônimo disse...

É difícil...Há que semear, porque algum terreno bom vai frutificar. E por isso que continuo jogando a semente...e já vi nascer brotinhos. Uma beleza!!!